Combinação

Com que roupa eu vou?

A bermuda azul, a legging preta, a blusa branca. O casaco rosa.

Não combina, mãe.

Todo dia é assim. Se tem festa ou se é só sorvete, se tem cinema ou se é só dia de feira. A Milena pede ajuda. E diz que não tem roupa, que o que tem não serve, que precisa de meia nova e se ganhar um tênis novo, se ganhar tênis novo, vai poder usar aquela calça que só a mãe acha que é bonita.

Com que roupa eu vou? A Milena pergunta, de novo, o que usar para ir ao curso de teatro.

O short branco, a legging azul, a blusa rosa. O casaco preto.

Não combina, mãe.

Escolha você, então, responde a mãe, ocupada. Quando eu era da sua idade, já sabia o que vestir, diz a mãe. Apressada e impaciente.

Quando você era criança você já andava assim?

Não e anda logo ou você perde a aula.

A Milena olha a mãe. De cima a baixo. Saia azul, meia preta, blusa branca com gola grande e bem passada, um cinto de fivela dourada.

Um horror, a Milena não pode dizer. Vai para o quarto e volta de vestido. Roxo.

Noite e dia

Prende, mãe, prende.
Prender o quê?
A tua perna na minha.
A Julia pede. Na cama. Aos três anos.
Solta, mãe, solta.
Soltar o quê?
A minha mão. E não me beija.
A Júlia suplica. De manhã cedo. Na porta da escola.
Aos dez anos.

Homofobia

A professora deu cinco. Cinco? Cinco, mãe, cinco. A Luisa diz, zangada, porque acha a nota injusta para o trabalho que teve. Fazer um mapa do preconceito. Era isso mesmo, filha? Era, ué. A professora queria que a gente dissesse onde é que no Brasil as pessoas não têm preconceito e a gente pintou tudo de preto. De preto? Ora, de preto, tem preconceito em todo lado, não tem não?

Tem. A mãe concordou, mas bem queria dizer outra coisa.

Preconceito, mãe. O porteiro sofre, você não disse? A faxineira sofre, você não disse? O paciente no hospital, o rapaz que entrega a água, a moça que trabalha de noite ali na esquina, o que ela faz, mãe?

Não interessa, mas a mãe não responde porque não sabe mesmo o que dizer.

Até você sofre, você não disse que depois quer nascer homem porque se fosse homem era tudo mais fácil? Você também sofre, mãe. O mapa só pode ser preto porque tem preconceito em todo o lado, não tem não? E a professora deu cinco. Preconceito, né, mãe? É porque a gente é menina, só pode. E a professora disse que o trabalho era sobre homofobia.

Homofobia? É, mãe. E o que a professora disse sobre homofobia? Nada, ué, mandou a gente pesquisar e fazer um mapa na nossa cabeça. E nós fizemos em quatro e a professora deu cinco.

Homofóbica.

Frio

Pega o casaco. Não precisa. Põe o casaco. Eu não quero. Então não vai sair de casa.

A lengalenga começa na saída. A Larissa acha que os patins bastam se ela quer brincar. A mãe enxerga o tempo que vai fechar mais tarde, ora, menina, põe o casaco ou ninguém sai.

Te peguei, mãe. Já vesti. Olha!

Sonho de menina

É com z, tia. Z…
Roberto Rodrigues Nunes de Souza. Com Z. Bem grande.
A Mariana é pequena. Tem nove anos e diz que são onze.
Para o Roberto com Z no Souza.
Que mentira.
Roberto Rodrigues Nunes de Souza, sétima D, goleiro. O mais bonito.
A Mariana está apaixonada. E diz para a tia porque se a mãe souber não quer saber.
Criança não namora.
Criança brinca e estuda, diz a Mariana que diz que é a mãe quem diz, mas ela acha que seria justo criança poder namorar. Se gente grande pode, ora.

Dia dos namorados

O Eduardo Henrique não foi à aula. Não foi? Não foi. Estava doente? Não sei. Não foi.

Era sexta-feira. Sexta-feira na escola é sempre o melhor dia. Mas o Eduardo Henrique não apareceu. A sexta-feira virou o pior dia, a Ágata reclamou.  Que dia ruim, o que terá sido?

Era sexta-feira e domingo é dia dos namorados. A Ágata não namora o Eduardo Henrique. Mas ele é tão bonitinho. Ah, quando eu tiver 15 anos, quando eu tiver 15 anos, eu posso.

O Eduardo Henrique que espere. E essas meninas assanhadas que não se assanhem.Ainda bem que o Eduardo Henrique não apareceu.  Segunda, todo mundo já esqueceu.

O melhor livro do mundo

Você já chorou lendo um livro? A Luisa pergunta com a cara inchada e os olhos vermelhos, já chorou?

(A  mãe da Luisa faz que sim com a cabeça e depois diz que sim,  já chorou por muita coisa e com muitos livros)

O livro que fez a Luisa chorar, é bom dizer, é sobre uma menina que já é moça e que já tem namorado e vai fazer intercâmbio na Inglaterra e vai sentir saudade mas quer conhecer o mundo. A menina que já é moça é legal e é agitada e nervosa e tem uma grande amiga e dá as costas para quem ela acha que é metida e besta. A menina do livro é moça como a Luisa vai ser daqui a pouco.

Em que parte do livro a Luisa chorou? Na despedida, quando a gente ganha abraço apertado de quem gosta da gente. Mas, ora, também vai ganhar abraço apertado quando já estiver na chegada. Não é assim?

E o livro que fez a Luisa chorar foi Fazendo o Meu Filme – A Estréia de Fani, da Paula Pimenta. O melhor livro do mundo, a Luisa garante.